Janelinha

Não era sua primeira vez, mas mesmo tendo passado por isso antes, se sentia ansiosa e com medo. Estava numa situação de tensão e com a tensão somada à ansiedade, disparou a movimentar a língua dentro da boca numa tentativa de empurrar o medo por entre os dentes. Quando percebeu, havia pingos de sangue enfeitando uma folha tamanho ofício, cujo plano de fundo era problemas de subtração. Problemas que para ela, mais pareciam monstros cheios de olhos na cara e na testa e agora, todo pintadinho de vermelho. Perdera, aos sete nos, neste dia, precisamente às 13h30min, seu segundo dente de leite, durante a sua primeira avaliação de matemática, aplicada pela professora Glória, agora nada satisfeita em recolher o teste naquele estado. Obviamente fez hora no banheiro quando a professora pediu que fosse se lavar. Pegou o dentinho, embrulhou no papel higiênico para dar a mãe, que fazia questão de colecionar todos os dentes que haveriam de cair. Lavou e enxaguou a boca. Fez xixi e esperou o sinal bater. A prova deveria ser feita numa outra oportunidade. Ao caminhar de volta para a sala de aula, através do corredor largo cheio de portas nos dois lados, assustou-se com a madre Ângela, uma coordenadora de aparência rude, com certo ar de malvada, onde supostamente foi inspiração para todas as personagens clérigos vilãs, dos variados filmes que haveria de assistir na sua vida. Tremeu de medo. Todos tinham medo dela, de sua cara áspera, seus cabelos escuros e grossos, mal colocados por baixo do pano, seu buço e sua voz grossa. Até mesmo do crucifixo de madeira com aparência muito pesada que pendurava no pescoço, ela tinha medo. Afinal, se Jesus está com ela, quem estaria comigo? Pensou… Abaixou a cabeça e passou por madre Ângela. Prendeu a respiração na tentativa de ficar invisível… Ufa, conseguiu. Duas vitórias no mesmo dia. Havia vencido o monstro da matemática e a madre má que tinha a cruz entre os seios. Só não havia vida suficiente naquela pequena menina, para conscientizá-la de que um dia, numa oportunidade breve, estaria diante da madre novamente e que na semana seguinte não haveria como escapar daquela bendita prova. Mas, como a vida ensina, ela aprendeu. Aprendeu que todas as vezes que um dente de leite estava mole, ficava ansiosa, mas era inevitável que ele caísse. Que quanto mais tentava preservá-lo, mais ansiedade e incômodo lhe causava. Dentes de leite se vão… Melhor que caíssem tão logo estivessem moles. Aprendeu que melhor se preparar para a prova e enfrentá-la de uma vez, a adiar um teste que será implacável na segunda chamada. Que prender a respiração não a tornava invisível. Melhor erguer a cabeça e respirar, mesmo quando não há nada a dizer. Aprendeu também que cara feia e aspectos rudes podem esconder um grande coração e, sobretudo, que Jesus está com todos, não na forma triste de uma cruz pesada no pescoço de uma madre ou de qualquer indivíduo que use o acessório levianamente, mas está em cada aprendizado, cada respingo de sangue de um dente que se vai e em cada equação matemática, aparentemente incalculável, que a vida pode apresentar.

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